A arte de Cândido Jacob Luthier

Há ofícios que são mais do que, apenas e só, o trabalho das mãos de um artesão. São arte, singular e de excelência, nascida de mãos que sabem, que são mestres de um ofício complexo que transforma madeiras, aço, vernizes e outros materiais em sons que nos prendem, que nos cativam.

 

Num início de tarde, deste inverno que já vai longo, mergulhámos na arte de criar instrumentos de cordas, no ofício de Luthier com Cândido Jacob. Por entre madeiras, moldes, serras, vernizes e colas, e tantos materiais mais, estivemos no atelier deste Luthier que nos desvendou a arte por detrás do ofício, a paixão que o move de construir guitarras únicas, irrepetíveis, genuínas. Cada guitarra tem, no seu todo, os elementos criados por Cândido Jacob (excepto peças em metal, como os trastes, no braço da guitarra). Cada madeira é comprada em mão, porque testar a sua vibração é, absolutamente, essencial. Cada ferramenta está alinhada, pronta no local certo, para o momento do uso. Cada cola e verniz preparados atempadamente. Cada desenho traçado ao rigor e seu molde trabalhado sem falhas. Cada passo no seu tempo. Cada movimento pela mão de quem sabe. Tudo concretizado num atelier, em Coimbra, num espaço onde o silêncio só é interrompido pela música. Silêncio que é premissa para que só a guitarra se faça ouvir. Cândido Jacob Luthier é mestria da manufactura em crescimento, no criar de guitarras.

 

Como descreve um Luthier a sua profissão a um leigo?

Um Luthier é um construtor. Um oficio que é dedicado à construção e reparação de instrumentos de corda. Só isto. O mais simples possível.

 

E se tivesses a falar com um músico, como falarias do teu trabalho?

Da mesma forma. A maior parte dos músicos não sabe como funciona a construção de uma guitarra. Eu próprio não sabia antes de começar a construir, após de ter tido alguns problemas com guitarras minhas. São raros os guitarristas que sabem como cresce o instrumento, muitos nem sabem o que é um Luthier, chegam a pensar que, no meu caso, pela forma como aparece na minha página página, é um apelido. Normalmente, explico porque determinada peça está em determinada posição e a resposta é “nunca tinha reparado…”. Daí, sim. Diria como a um leigo.

Violão, violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, violas da gamba, guitarras (e são tantas que corto na descrição), alaúdes, archialaúdes, tiorbas, bandolins… o que tenha cordas, é o teu universo, creio.

 

Qual o(s) mais encomendado(s)?

No meu caso, estou dedicado às guitarras, mas não a todo o tipo de guitarras. O que me é encomendado tem por base aquilo que o cliente vê que eu faço, que são guitarras com cordas de aço. Guitarras mais viradas para o Blues e para a Folk. A clássica que construí, por exemplo, fiz só como início da aprendizagem para saber como é que funcionava, doutro modo, por mim, nem se quer tinha começado por uma clássica, mas teve de ser. Era algo mais simples e para começar o ofício era o certo.

 

Qual a guitarra mais complexa de criar, ou são todas complexas, no seu estilo?

Mais complexa… Bom, fiz uma Archtop que é uma guitarra de jazz, de tampo arqueado, escavada, esculpida,… digamos assim. Sim, essa é a mais complexa de construir, a mais dificil para mim, até porque ainda só fiz uma (risos). Depois, todas têm o seu grau de dificuldade, a sua característica… E, na verdade, também estou, no momento, numa fase de experimentação de muita coisa. Então, cada guitarra acaba por ser um desafio com o seu grau de complexidade, pois estou a criar algo inteiramente novo.

Posso pedir-te para sucintamente descreveres o processo criativo e de construção base, que seja quase transversal a todos? Do desenho ao afinar. Confesso que é algo que vejo como uma arte superlativa… criar um objecto que me vai envolver em sons.
Primeiro, o desenho. Depois, o molde que, para mim, tem um problema. Como faço guitarras sempre diferentes tenho de fazer vários moldes, fazer sempre um novo. Segue-se o calibrar da madeira, isto é, colocar a madeira a uma espessura específica e tudo depende do tipo de madeira que é. Pode ser, por exemplo, pinho (que a nível de resistência e de condução do som é a melhor e a mais leve – densidade /leveza/condução do som e resistência é superior) ou cedro (não desenvolve tanto como o pinho, é mais frágil de trabalhar e com um som mais quente, não servindo para todas as guitarras), ou… só para uma breve ideia da importância da escolha da madeira, pois cada uma tem a sua característica sonora. Passos seguintes, toda a parte da colagem da madeira, colagem das barras harmónicas (barras que acabam por equilibrar a nivel sonoro o tampo, digamos que se não existissem barras sonoras o tampo acabaria por vibrar de modo aleatório, sem limite; prendem o tampo de maneira a dar-lhe resistência e, simultaneamente, a limitar a vibração controlando-o), isto tanto no tampo como no fundo. Entramos na fase das ilhargas (na lateral) que são dobradas de maneira a dar forma à guitarra e, depois de esculpidas as barras no tampo e no fundo, são colados um e outro para formar a caixa. Está fechada a caixa!
O passo seguinte é realizar os contornos, é feito o braço, a cabeça, tudo é unido, colado, lixado,… depois há que calcular a altura do cavalete (no tampo, onde rematam as cordas), calcular a distância correta para cada, envernizar, trabalhado o osso para fazer as pestanas (passagem do braço para a cabeça), colocar afinadores, trastes, cordas e começar a tocar.
Tentei sintetizar (risos).

 

Objectos essenciais à construção de um instrumento de cordas? Quais os nomes e para que servem? Como sabes, sou a leiga…

Madeira é a base indispensável. Plainas – eu só tenho três há quem tenha quarenta, mas chegam-me -, formões – para desbastar ou abrir cavidades -, serras, uma boa pedra de afiar não pode faltar, e… São tantos e eu uso quase tudo.

 

Uns nomes mais caricatos, há?
Uhm… um graminho de corte – ferramenta para fazer o corte no tampo e no fundo, de maneira a posteriormente encaixar contornos específicos, é semelhante ao graminho de marcação, mas tem uma lâmina para cortar -; depois, todo o tipo de ferramentas que um serralheiro e um carpinteiro utilizam como transferidores; uma boa faca; um paquímetro – é a única maneira de controlar as pequenas espessuras com que trabalho, é também chamado de compasso de espessura -; grampos, uma boa serra japonesa – que corta muito bem mesmo sem magoar a madeira; grosas – para desbastar; limas; muita lixa… e tanto mais.

 

O processo, que atrás falámos, tem o seu tempo no tempo. Há um tempo certo para construíres cada nova peça?
Mais ou menos dois meses. Nunca estou, verdadeiramente, dedicado a 100% a uma peça que crio porque aparecem reparações e clientes que precisam da guitarra dentro de dois ou três dias. Aí, paro a construção para reparar a guitarra, às vezes vêm três a quatro guitarras ao mesmo tempo e são, por norma, uns quantos dias de pausa em que me dedico à reparação, atrasando um pouco o processo de construção de uma guitarra de origem.

 

Músicos que possas desvendar o nome para quem já criaste um instrumento de cordas?
Fiz uma guitarra para o Sr. Vulcão e para mais alguém conhecido não há propriamente um nome. Criei uma stompbox para o Frankie Chavez – mas não é guitarra. Conhecido, com um projecto musical, não tenho nomes para te dar. Trabalho muito para professores de guitarra que não têm a visibilidade de um músico reconhecido.

 

Ao criares para músicos profissionais, a liberdade criativa existe ou cinges-te apenas aos requisitos pedidos e não dás rédeas à tua assinatura?

Até à data, nunca me foram colocadas limitações. Pediram-me sempre uma guitarra à medida deles, músicos, mas confiaram-me o trabalho com total liberdade criativa, sem entraves. Por enquanto, claro. No dia em que surja alguém que me limite um pouco, vou tentar criar um instrumento em que haja pontos em comum entre mim e o músico.
Claro que se um músico quiser uma guitarra com um determindado tipo de som e formato, é o básico, mas em toda a componente estética, que faz parte do meu trabalho, das guitarras que saem do meu atelier, é a minha parte. Um músico pede um formato igual a um que tenha aqui, mas um pouco mais pequeno, com a cabeça diferente e aí, entra o meu processo criativo, sempre com a ajuda dele quando lhe pergunto como é que gostaria de ver um determinado pormenor, como gostaria de ter a guitarra, às vezes, esta é a parte mais complicada.
Já me pediram guitarras com contornos em plástico e pintadas de certa forma em que rejeitei a encomenda. Não faz parte da minha imagem, do meu trabalho, da minha técnica desenvolvida onde tudo é feito por mim, manualmente, trabalhando as matérias de forma ancestral – falo das colas e dos vernizes, por exemplo, que sou eu que os faço aqui, no atelier, não compro nada feito; tal com o osso que uso, por exemplo, no cavalete… Vou ao talho buscar, cozo, preparo… Já houve quem me pedisse para pintar com tintas e vernizes de celulose e não dá, não faço isso.

 

Se eu olhar para um instrumento, algures num palco, há algum elemento que me faça dizer… isto é obra-prima do Cândido Jacob?

Todas as minhas guitarras têm um logotipo em madeira, colado na guitarra, por dentro.

 

A pergunta que te poderia ter feito no início, mas que faço agora, a caminho do fim. Porquê ser um luthier por cá?

Primeiro, porque me fascinava. Desde que comecei a debruçar-me sobre o construir de uma guitarra fiquei maravilhado com todo o processo. Comecei por procurar informação na internet, a ver videos, sites e cada vez me interessava mais. Depois, o que já te disse, o tal problema que tive com uma guitarra e o leva-la um carpinteiro que me criou um problema ainda maior. (Risos). Então, decidi dedicar-me a esta arte. Nessa altura, conheci o Fernando Meireles (Luthier) e entrei contacto com ele. Deu-me logo um sim, que podia ir ao atelier dele para aprender o ofício. Estive lá durante um ano e meio. Seguiu-se Paris, para aprender com outro Luthier, e a paixão foi crescendo cada vez mais. É um ofício, mas é também uma grande paixão.

 

O que está por detrás do Luthier? Ouvi dizer que há uma formação numa outra área, outros interesses.

Sou licenciado em História de Arte com especialização em Arte e Crítica Contemporânea, e foi aí que decidi não trabalhar na área da Arte, (risos) não me dedicar à Arte. Ainda trabalhei dois anos numa Galeria, mas não era o tipo de trabalho que queria gostava ou procurava. Aprendi muito, na Galeira 7, em Coimbra, todavia não era o futuro.
E é possível ser um Luthier, em Portugal, com saldo positivo?
Sim, podes ser Luthier em Portugal, com saldo positivo. É um desafio, é um certo isolamento de muita coisa, um ofício em que trabalho sozinho, naquilo que gosto, que idealizei. À parte disto, faço montagens de exposições de arte, é verdade, há outros interesses de conhecimentos que ficam. A Arte Contemporânea sempre foi uma área que gosto muito, mas é mais um part-time.

 

A tua profissão aparece como violeiro, guitarreiro ou luthier. Por que usamos nós mais a palavra francesa e não a portuguesa? Acabou por cair no uso como tantos outros termos em tantas outras áreas? Na etimologia da francesa, ela deriva de Luth (alaúde).

Violeiro, creio, é um termo mais utilizado no Brasil. Luthier, talvez pela universalidade da palavra. É um estrangeirismo agradável ao ouvido e ideal para melhor se associar ao oficio.

 

Há algum Antonio Stradivari (1644-1737), Guiseppe Guarnieri (1698-1744) ou Nicolò Amati (1596-1684) contemporâneo que seja referência para ti?

Há pelo menos três que são as pessoas com quem tenho mais contacto, duas delas foi com quem aprendi a arte de ser Luthier. Uma é o Fernando Meireles, de quem admiro o trabalho. É alguém que me continua a transmitir novos saberes sempre que vou ao atelier dele, que me continua a inspirar e, principalmente, comecei a aprender esta arte com ele. Depois, outra pessoa, também com um trabalho excepcional, o Ludovic Barrier. Francês, da minha idade, com quem eu estive a aprender em Paris e que faz guitarras absolutamente fabulosas. Por fim, Andy Manson, um Luthier inglês, internacionalmente conhecido pelo trabalho que fez, até porque construiu guitarras para nomes como Jimmy Page e John Paul Jones (Led Zepplin), e como vive em Portugal permite uma proximidade, uma amizade (amizade que também mantenho com o Fernando e com o Ludovic). Manson tem um trabalho ímpar e muito virado para o que eu faço, na Folk.

 

Para quem gostarias de criar um instrumento de cordas, um sonho?

(Risos). São tantos. É difícil, mas… gostaria muito de fazer uma Weissenborn para o Ben Harper, músico que ouvi desde pequeno e que me fez aprender a ouvir e a adorar este tipo de guitarra, este tipo de sonoridade. Acrescento o Keziah Jones, José González e, se estivessem vivos, George Brassens e Elliott Smith. Ah! (risos) E o Nick Drake que me fez apaixonar pelo som acústico.

A complexidade de uma arte que é um ofício onde a mão, o talento e a paixão são as ferramentas essenciais ao criar de uma guitarra.

 

Texto de Sara Quaresma Capitão

(Publicado a 10 de Março de 2016 em mutante.pt)